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Bourdain, o punk que transformou a gastronomia em cultura pop

Pedro Marques

08/06/2018 16h25

Obama e Bourdain comeram em um restaurantes simples de Hanoi, em 2016 (Crédito: Instagram)

Um dos problemas da idade é ver nossos ídolos morrerem. Alguns mais jovens, outros nem tanto, muitas vezes por causa do excesso de álcool, cigarro e outras drogas. Basicamente, viveram uma vida digna. Agora, acordar com a notícia de que Anthony Bourdain se suicidou, aí, não! Como assim, o cara que viajava o mundo para comer, vencedor de vários prêmios, comeu com o Obama em um restaurante simplão no Vietnã e uma das personalidades mais influentes do mundo da gastronomia tira a própria vida em um quarto de hotel em Estrasburgo? Nem que ele tivesse jantado em um famigerado restaurante francês de São Paulo seria compreensível.

Assim como muita gente que conheço e é fã de seu trabalho, meu primeiro contato com seus livros foi no começo dos anos 2000, com o "Em Busca do Prato Perfeito". Li o livro rapidinho – a narrativa crua e o humor ácido ajudaram – e virei fã de cara, daqueles de querer sentar num boteco para comer torresmo e tomar uma cerveja com o ídolo. O máximo que consegui foi uma entrevista por telefone, uns seis anos atrás.

Esse sarcasmo foi a marca registrada de Bourdain em seus programas, livros, histórias em quadrinhos e roteiros para séries televisivas. Falava sem problemas sobre sexo e drogas, coisas que rolam a valer nos bastidores de um restaurante, mas não eram muito faladas até então. Com isso, transformou o mundo até então esnobe dos restaurantes de alta gastronomia em cultura pop.

E não deixava de comprar brigas com o que não gostava. Tirou barato de Jamie Oliver (o coroinha da gastronomia, segundo ele) e vários outros chefs. Adorava cutucar veganos e vegetarianos, por exemplo. "Se eu for mais forte, mais rápido e mais esperto que um animal delicioso, eu vou comer esse animal", escreveu ele em algum de seus livros (já não lembro qual, claro).

Com essa postura de bad boy, ganhou uma legião de admiradores e vários prêmios. Era fã assumido do quarteto punk Ramones e sempre dedicava seus livros a Joey, Johnny, Marky e Dee Dee, nova-iorquinos como ele. Para mim, ele estava mais para um Keith Richards, com todos os excessos e sarcasmo. No fim, alcançou o mesmo status de estrela pop, mas através da comida. Uma pena ter nos deixado da mesma maneira que tantos artistas.

Sobre o autor

Pedro Marques já trabalhou em redações e restaurantes, viajou bastante pelo Brasil e pelo mundo para comer e beber bem e trabalha como jornalista de gastronomia desde 2010.

Sobre o blog

Aqui você fica sabendo sobre as coisas mais “daora” dos bares e restaurantes de São Paulo! E outras nem tão daora assim.